Ivan Araújo Poeta cordelista, compositor, roteirista de cinema e teatro

 Cordel "o homem do jirau encantado"


Homem branco com paletó azul e celular nas mãos


O homem do jirau encantado.

Fui buscar inspiração na Escritura Sagrada, que diz que o preguiçoso é uma alma condenada. Por vários motivos, é uma criatura que não é exemplo de nada.

Quem tem preguiça é réu da sua própria mazela, pois esquece de agir segundo se espera dela. Que o ser humano foi feito pra produzir.

Também não pensa nem age com o discernimento verdadeiro, pois sua mente é sonolenta de uma forma descompensada. Torno a repetir: é uma alma penada.

Aqui trago o seguinte relato que ouvi de minha saudosa vó, que lá pras bandas do interior, chamado de Seridó, onde habitava o preguiçoso maior.

Seu nome era Faustino, que recebera em pia batismal. Era fraco, franzino, possuía em seu corpo um pecado capital.

Me refiro à preguiça, que tem o poder de escravizar o ser vivente, tornando-o fraco, incompetente, indo a ser um pobre indigente.

Vivia no interior, Faustino em sua rede, não queria guerra com ninguém, porém era objeto de riso. Sua atitude era dar o máximo do mínimo.

Sua esposa era a maior vítima desse caráter devedor, pois lhe faltava a figura de um chefe provedor. Porque Faustino dizia que não podia trabalhar, pois era cheio de dor.

Mas pra comer era ligeiro, feito todo esmeril. Embolava rápido, era o melhor do Brasil. Ah, caboco safado, descontrolado e vil!

Sua esposa, Gertrudes, era muito diferente, trabalhadora e capaz. Fora criada na roça, plantando e cuidando dos animais. Era um exemplo de mulher perspicaz.

Por isso, em sua casa, tudo era organizado, e defeito não havia. Embora não fosse rica, com sua agilidade, conseguiu o que queria.

Galinha no quintal era de perder na vista, coisa linda de se ver, pois era fruto do seu trabalho, que era um prazeroso lazer. E o marido, sem nada pra fazer.

Todo dia, o marido insistia fortemente, implicava em comer um frango, sem ao menos jogar uma ração decente. Só queria se aproveitar do galináceo inocente.

Era refutado pela esposa, que jogava nas suas fuças, tamanho atrevimento, que ele não ia comer um pinto, nem mesmo por um decreto ou juramento.

Visto que é negado ao preguiçoso o direito ao alimento, pois, se o homem foi condenado a trabalhar, que faça sua parte e obedeça o mandamento.

Então, Faustino tomou o intento de todo dia ir pro roçado, cabaça cheia, facão amolado. Saia de madrugada e só voltava quando o pôr do sol estava finalizado.

Um levava foice, no outro era machado. Porém, diariamente, era certa a visita no roçado. Até o olhar de Gertrudes havia mudado.

Agora era visto com carinho pela esposa e elogiado por vizinhos, pois tinha se tornado alguém que dá exemplo e mostra o bom caminho.

Dona Gertrudes amoleceu com aquela atitude exemplar. Já atendia o marido em tudo que ele pedia, lavava seus pés e lhe prestava honraria.

Então, ela se convenceu daquele comportamento nobre. Começou a abater uma galinha por dia, mesmo os dois sendo pobres. Pois Faustino merecia até um busto de cobre.

Passaram dias que viraram semanas, o casal unido e feliz. Agora, a esposa, ciente de que tinha em posse um roçado farto, porém desconfiada. Quando vem muita carne no prato.

Durou seis meses essa farsa. Pois Faustino era mala, era um embuste verdadeiro. Enganou sua mulher e comeu todas as galinhas do poleiro. Ah, safado isoneiro!

Só que a justiça castiga é no mau costume. Um dia, Faustino foi atrás do ouro e encontrou estrume.

Tomou na jaca e foi grande o azedume.

Dona Gertrudes, desconfiada, igual gato se escondendo, foi conferir a marmota. Elaborou um genial plano pra isso. Resolveu de fininho acompanhar o malandro.

E aprontou logo um jucá, um remédio para curar safadeza. Aquele enganador que usou de baixeza, pois a esposa não merecia aquela torpeza.

Ela ficou de tocaia e esperou, achar caroço no mingau. Muito embora não imaginasse o resultado final, pois o mau elemento tinha feito um jirau.

A mulher, tomada de fúria, emitia raios fulminantes para o marido golpista, que agora estava sem saber o que fazer. Desculpas não tinha para poder dizer.

Tivera o tempo todo deitado, parado, feito água de dengue. Era um descarado, um palhaço mambembe, era um canalha que não merecia ser apelidado de gente.

Dona Gertrudes mirou no queixo, porém o acertou na canela. Ele deu um berro de rasgar a goela, chorando de dor, implorando o perdão dela.

Pra isso servir de lição, que a mentira é mãe dos vícios e o pior, a preguiça, que mata e fere, quando a vida não enguiça. E por isso, talvez, a coragem exista.

By Ivan Araújo

Daviel Campos

"Olá, amigos da literatura! Sou Daviel Campos, escritor, poeta e amante da literatura nacional e regional. Autor de 'O Lar que Perdi, Uma Jornada em Busca de Redenção' (ficção religiosa) e 'O Manual do Instrutor Bíblico' (teológica). Componho a lista dos melhores escritores e poetas da região com o poema 'Minha Terra Não Materna', publicado pela Academia Camocinense de Ciências, Artes e Letras (ACCAL), na Antologia A Centelha." Sinto-me honrado em compartilhar minhas reflexões e experiências com você. Espero que cada post seja uma fonte de inspiração e crescimento. Aqui, você encontrará: Histórias emocionantes de autores renomados; Reflexões profundas de pensadores visionários; Dicas práticas de especialistas em diversas áreas. Além disso, desvendaremos mundos literários com: Obras e poemas de destacados autores regionais; Análises de clássicos da literatura brasileira. Meu compromisso é oferecer conteúdo de qualidade que recompense seu tempo e atenção.

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